Na pista
Era só uma aula de corrida.
Fim de tarde de uma segunda-feira, encerro o expediente e troco de roupa. Minha 1ª aula de corrida orientada me aguardava. O tempo estava bom, sem vento mas não muito abafado, apesar do sol intenso ao longo do dia.
Me dirijo ao ponto de encontro e a professora mostra o caminho. O estádio é enorme, subo os degraus em direção à luz e minha imaginação corre para a sensação de um time de futebol entrando em campo, sendo ovacionado pelo público.
Ao redor do campo de futebol, uma pista de 400 metros já tem algumas raias ocupadas por duplas ou trio de atletas, corredores solo e, claro, amadores como eu.
— Dá uma primeira volta caminhando, ok? Só pra aquecer, depois a gente começa.
Segui a orientação da professora e comecei a caminhar pela pista. Por mim, passavam as conversas mais aleatórias, entre respirações ofegantes, corpos encharcados de suor e camisetas com frases motivacionais:
— Isso dá pra pagar em quantas vezes?
— Esse cara mudou a minha vida.
— Mas eu tomei whey só quando cheguei em casa.
— As oportunidades são assim mesmo, é foda.
Ao fim da primeira caminhada, a instrutora deu o start na corrida. “Bem de leve, veja como te sentes”, pediu.
Comecei a correr na pista plana e, em poucos segundos, meu cérebro me levou até uma memória distante: as gincanas promovidas pelo meu colégio em Bagé. Era uma mobilização intensa, fazíamos até camisetas. Não lembro bem quanto tempo durava o evento todo. Uma semana? Duas? As modalidades esportivas eram as mais variadas: futebol, vôlei, handebol, corrida e, ao final, cada ano escolar (alguém aqui também chamava de série?) tinha uma equipe vencedora. Lembro de disputar o salto em distância, um dos poucos momentos em que eu confiava no meu tamanho. Sorri lembrando da sensação de pular com toda a força possível, como se minhas pernas fossem feitas de um elástico mágico e pudessem ir mais longe até o instante em que, finalmente, eu usava os pés para aterrissar e marcar o chão de areia.
Quando voltei minha atenção para o presente, já estava concluindo mais uma volta corrida. Quantas já foram? Não sei, mas agora o céu estava completamente escuro.
– Enquanto não chove, mais uma volta. - alertou a professora.
Segui. Na pista, as cabeças olhavam ora para a frente, ora para cima, como se todos pedissem “segura aí, São Pedro, deixa eu terminar essa volta”. Raios iluminavam a escuridão do céu, mas não caía um pingo. O dia havia sido bonito, de onde veio tanta nuvem? Lembrei do ditado “sol e chuva, casamento de viúva”, o qual, por alguma razão minha mãe me ensinou como “sol e chuva, casamento de raposa”. Nunca a questionei sobre isso, mas com o tempo descobri que o cristianismo costuma associar a figura da raposa à trapaça. Uma pena. Eu olho para a raposa como um animal inteligente e que se vira bem sozinho (além de belíssimo). Para enfrentar as tempestades – da natureza e da vida –, prefiro ser raposa a ser viúva. Terminava essa reflexão quando, novamente, encontrei a professora.
– Mais uma, bora lá!
Entre os que permaneciam nas raias, havia uma confiança de que os raios e trovões não eram um presságio de temporal, mas de uma chuva de verão que aliviaria o calor intenso dos últimos dias. O céu estava completamente escuro, mas a pista seguia seca.
– Como tu estás te sentindo? Já foram seis voltas, vamos para a sétima e alongamos?
Seis? Eu havia corrido seis voltas? Tudo bem que 400 metros é brincadeira para muitos, mas considerando que eu não corria há tempos, achei que poderia me dar uma medalha de ouro, dessas de latão pintado, porém de valor inestimável, como as que conquistei no colégio.
Começamos o alongamento quando percebi os primeiros pingos no chão. Aos poucos, a pista foi esvaziando e o céu foi mandando mais água. Pode vir, São Pedro, agora eu terminei.
Caminhei até o carro abaixo de água, rindo sozinha enquanto lembrava os banhos de chuva no pátio de casa, durante minha infância em Bagé. Ou talvez tanta alegria fosse somente um reflexo das endorfinas liberadas pelo exercício.
Era só uma aula de corrida.
Para seguir a semana…
Há tantos livros sobre os benefícios da corrida, mas impossível não mencionar Do que eu falo quando falo de corrida, do Haruki Murakami. Acredite: está na minha lista, mas ainda não li. Indico sem medo porque sempre ouvi falar bem, sem polêmicas à parte.
Não gosta de correr? Tudo bem. Eu já mencionei aqui a importância de se mexer de qualquer forma, mas como estamos na corrida pré-Oscar, aqui vai um dos indicados à estatueta: veja a Demi Musa mexendo-se mais aos 62 do que eu quando tinha 25.

Que relato delícia! Me identifiquei em como nossa cabeça vai nos levando para outros lugares enquanto corremos. Obrigada por partilhar.
Sinto falta de ser atleta rs. Mesmo que tenha sido só dos campeonatos escolares. Tá valendo?