O corpo cansa
Nós somos prisioneiros do nosso corpo, eis a verdade. (David Coimbra)
Em 2011, eu e meu irmão fomos ao cinema assistir “Cavalo de Guerra” (2011). Há uma cena (não é spoiler), não recordo mais se era o cavalo principal ou apenas um dos mil que aparecem no filme, em que o animal encontra-se coberto por pedaços de arame farpado, no meio do campo de batalha, respirando com dificuldade. Um cavalo, dos animais mais fortes e resistentes que há.
Lembro do meu irmão comentar em voz baixa “o corpo cansa”.
Naquele mesmo ano, o craque Ronaldo se despediu dos campos de futebol alegando “perdi para meu corpo”. Lembro de ver a frase estampada em algum jornal ou revista da época e sentir o impacto que uma boa chamada (e uma boa diagramação) provoca no jornalismo. Para certas situações na vida, não há drible que resolva.
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Em 2022, antes de perder a batalha para o câncer, o jornalista David Coimbra escreveu em sua última crônica “nós somos prisioneiros do próprio corpo, eis a verdade”. Ao longo do texto ele explica que, ainda que continuasse amando a vida e sabendo que ela é boa por diferentes motivos, a dor intensa - e que o fazia permanecer por dias em posição fetal - havia feito com que ele perdesse a vontade de viver.
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O corpo da Chloé cansou no final de maio. Após a cirurgia para remoção do baço nos primeiros dias de janeiro, minha filha canina me enganou pelos meses seguintes com a energia revigorada a tal ponto que eu esqueci que seu organismo estava entregue a tumores. À época, a oncologista veterinária me alertou que a cirurgia traria qualidade de vida por algum tempo, mas não a cura. E assim foi.
No dia da despedida, os funcionários da clínica me levaram até o pátio, onde a Chloé descansava sob o sol e sobre a grama. Ela já estava internada há três dias, sem sinais de melhora, minimamente estabilizada com antibióticos, analgésicos e comida pastosa. A médica da internação foi sensível mas também firme em me explicar as condições de um paciente terminal.
O corpo, canino ou humano, cansa.
Sentei na grama, ao lado da Chloé. O rabo balançou de leve, ela me reconheceu. O rosto magro, visivelmente cansado. Ela já não ficava em pé, pouco comia. No entanto, ao meu primeiro sinal de choro, se agitou como sempre fez, como se falasse “ah, não! Se vai ficar triste, nem vem!”. Ela nunca gostou de me ver/ouvir chorar. Segurei firme, tentei sorrir. O Tiago chegou em seguida e juntos, entendemos que ela queria nos ver bem, apesar do corpo frágil e da dor.
Fiquei abraçada na Chloé, até o fim, com o rosto sobre a nuca de pelos pretos.
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Dizem que é o cachorro que nos escolhe, que temos o cachorro que precisamos, e não o que queremos. Se isso é verdade, a Chloé soube dar o recado. Ela entendeu que eu estava me distanciando da vida que verdadeiramente queria. Eu precisava voltar; ela sabia o caminho. Fez isso me guiando durante nossas caminhadas diárias – passeio para ela, terapia para mim. Ou então, quando sentávamos na grama e ela se esticava, numa postura de pilates, e eu ficava deitada sobre a canga, olhando o céu, (re)aprendendo a (não sentir culpa por) fazer nada. Às vezes, nesses momentos sobre o verde, a Chloé me olhava como se falasse: é isso, ok?
No meu caso, houve um tempo em que eu achava que o importante mesmo era pegar voo para São Paulo semana sim, semana não, trabalhar aos finais de semana e perder momentos com amigos e família por conta de urgências que nunca foram, de verdade, urgentes. Eu paguei um preço alto.
A Chloé, do jeito dela, me trouxe de volta para casa.
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Muitas coisas aconteceram desde a despedida. O Tobias segue sendo o cão sênior da casa, boa praça como sempre, e agora irmão mais velho da Panqueca, uma fiapa grisalha de luvinhas brancas. Ela não veio para substituir a Chloé mas, sim, aproveitar o tanto de amor que ficou na nossa casa.
Nota importante: além de seguir viva nas melhores memórias, a Chloé não descansou sem antes cumprir um combinado, meu e dela.
Mas isso é assunto para uma próxima news.
Para seguir a semana…
Recentemente, o Tiago me presenteou com um livro da excelente Martha Batalha. Crônicas leves para digerir após o almoço, numa cadeira confortável sob o sol.
» Leia: O Algoritmo Sou Eu (Arquipélago Editorial)
Um filme onde a vida no espaço parece ser… fofa? E o Ryan Gosling, como sempre, em papéis certeiros.
» Assista: Devoradores de Estrelas (embora o título em inglês seja mais legal: Project Hail Mary), disponível no Prime.


Aieee, olhos cheios de água por aqui!! Chloé cumpriu a missão e deixou amor com certeza!
E Panqueca é um amor!
Chloé, Chloé, que história bonita a de vocês 💜
Não imagino o quanto foi difícil, mas que bom que tu pôde dar esse último abraço!