Príncipe encantado
Um merdinha.
Eu devia ter uns 12 anos quando me apaixonei (mega platonicamente) por um colega de aula que tinha ares de Leonardo DiCaprio. Mesmo sorrindo para as paredes, eu me considerava bastante realista: sabendo que seria impossível difícil casar com o astro do Titanic, por que não investir em alguém parecido?
Passei anos indo a festas com esse pré-requisito para futuros candidatos: loiro, alto, de olhos claros e que me falasse “You jump, I jump!”. Eu me achava grande coisa por não acreditar no príncipe encantado do cavalo branco, mas a hipocrisia estava em confiar na existência do galã de séries e comédias românticas, esse que surge ao acaso em cafés, ruas e filas de supermercado, sabe? Eu estava iludida confiante e assim segui por muitos anos.
Até que o encontrei.
Loiro, alto, olhos azuis-esverdeados, ares de Leonardo DiCaprio. Lindo de morrer. Médico formado em universidade pública, em busca de um amor para chamar de seu, casar e ter filhos.
Um merdinha.
A conversa até começou bem, mas logo depois eu percebi que ele estava decepcionado comigo. Decepcionado não, frustrado. Quanto mais ele falava, mais eu via a agonia dele em não compreender o porquê de eu não estar deslumbrada com aquele discurso. Ele tinha certeza achou que era o único no mundo a ter viajado, o único a ter acesso a uma boa educação e, tadinho, achou que era o primeiro médico que eu conhecia. Até hoje tenho a impressão de que esse encontro foi a vida tentando me dizer: “era isso mesmo que você queria? Então toma”.
Pois bem.
Lembrei desse episódio da minha vida numa ida ao teatro com minha tia. Fomos assistir a um monólogo baseado no livro “Tudo o que eu queria te dizer”, da Martha Medeiros. A grande Ana Beatriz Nogueira deu vida a cartas escritas por e para diferentes personagens, fruto da imaginação de Martha. Para minha sorte e encantamento, os textos escolhidos para a peça eram todos assinados por mulheres, em diferentes contextos e etapas de vida.
Uma mulher que decide terminar um casamento sólido, mas morno; uma idosa com saudades do falecido marido; uma amante que propõe um diálogo honesto com a esposa do amado: “Fique com esse merdinha”. Ao longo da peça, a coragem por trás de cada personagem foi uma constante.
Eu sigo fã de comédias românticas e acredito fortemente no amor. Porém, em tempos de redes sociais, onde as aparências fazem muito mais que enganar, me preocupa o tanto de meninas/mulheres que insistem em se ver como donzelas indefesas, à espera do salvador. Assim como as personagens da peça, vejo a necessidade da coragem constante para não esquecer que podemos (devemos!) ser protagonistas da nossa própria história.
Importante dizer: não há nada de errado em querer viver um romance, sentir o coração bater mais forte. E tudo bem se você não quiser casar com o Mr. Bean.
Só não aceite merdinhas, mesmo que seja o Leonardo DiCaprio.
Em breve, Porto Alegre celebrará mais uma edição da Feira do Livro, que terá como patrona ninguém menos que Martha Medeiros. Para quem é daqui (ou estará por aqui), fica o convite para um belo passeio pela Praça da Alfândega. E para quem ainda não leu obras da Martha, sugiro o livro > que deu origem à peça > que deu origem a essa crônica: Tudo o que eu queria te dizer.
O texto de hoje contou com a revisão do meu querido amigo Rafa Tourinho, que assina a excelente newsletter O questionador.
Obrigada pela companhia e, se gostou do texto, que tal compartilhar com os amigos?
Até breve!

Luísa, me identifico demais, mais uma vez! Rs Quantos merdinhas fantasiados e que bom que no final a vida me trouxe o que eu não buscava, mas que me faria feliz 🎈
“Tô perplecta” com essa crônica! Kkk