Salve, Jorge!
Mais uma declaração de amor ao Uruguai.
O primeiro show foi em 2023. Em um apartamento menor, eu e Tiago vivíamos outra rotina. Nossos planos eram mais limitados ao dia a dia nos respectivos trabalhos e, claro, aos cachorros. Não lembro bem quando nem como comprei os ingressos, apenas comuniquei o Tiago que iríamos assistir ao Jorge Drexler.
Eu já escutava Tinta y Tiempo a caminho do trabalho, e escolhi “Corazón impar” como minha favorita desse álbum.
Te propongo apenas
Que juntemos soledades
Cada naranja tendrá ella sola
Sus dos mitades
Tem algo mais romântico que uma laranja inteira encontrar outra inteira e, juntas, serem uma só, sem abrir mão de suas próprias identidades metades?
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Escrevi em outra ocasião sobre minha relação com o Uruguai1. Não posso dizer que o Jorge Drexler sempre fez parte disso; acho que ele foi me conquistando aos poucos. Eu já gostava de suas músicas quando meu irmão me disse que ele era uruguaio. Aí só restava me apaixonar por completo. O Uruguai é sempre bom.
Um ponto que acho engraçado é o fato de Jorge ser - adivinhe? - médico (e nem somos da mesma família!). Otorrinolaringologista. Foi minha melhor amiga de infância quem me apresentou “Pongamos que hablo de Martinez” onde ele canta sobre estar “desorientado e confundindo vocações” quando decide largar o jaleco, pegar o violão e partir rumo a Madri.
Creo que sabes que el regalo que me hiciste me cambió la vida entera.
Toda vez que ouço essa música, penso no quanto ele poderia ter seguido a vida num charmoso consultório em Montevidéu, diagnosticando sinusites, otites e amigdalites. E nós aqui, completamente alheios ao talento perdido. Em todo caso, se algum dia eu passar mal e o Jorge Drexler for o médico mais próximo, prefiro que ele cante. Suspeito que me recuperarei mais rapidamente.
Ao fim de maio deste ano, Porto Alegre fez Jorge Drexler se apresentar por três noites seguidas. Taracá é seu álbum mais recente e fala um pouco sobre voltar para casa, trazendo o candombe uruguaio e o samba brasileiro que ele tanto ama. Estaria Jorge cansado das noches madrileñas? Talvez. Não tive tempo de perguntá-lo. Apenas o vi entrar no palco na primeira noite e, em poucos segundos, se ajoelhar diante do público, num humilde ato de agradecimento.
Gracias a ti, Jorgito.
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Contar histórias é algo que fazemos desde que o mundo é mundo. Saber contar histórias é algo um pouco mais difícil, mas não impossível. Fazer isso através da música, isso sim, é para poucos. Não é apenas escrever, mas encontrar o ritmo e a melodia que darão o tom certo àquela sequência de palavras que, mais tarde, será entoada por milhares de pessoas.
Como se faz isso?
Foi o que fiquei pensando quando vi o uruguaio cantar “Al otro lado del río”, primeira música em espanhol a levar o Oscar de melhor canção original (2005). Ele apenas anunciou “oigo una voz que me llama, casi un suspiro” e, em silêncio, fez movimentos circulares com o braço convidando o público a cantar uma parte do refrão. Três mil pessoas ao mesmo tempo:
Rema, rema, rema.
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Sem motivo aparente nem objetivo específico, este texto veio em meio a um processo misto de luto e de celebração. Quando há confusão de sentimentos, poucas coisas caem tão bem quanto a música. Eu arrisco incluir a palavra escrita, que é o que sempre me fez sentir acolhida, nas horas boas e nas nem tão boas assim. Jorgito sabe melhor e fez música sobre isso também:
La gente pasa pero las palabras quedan.
Meu texto Obrigada, vizinho explica um pouco o porquê de sempre querer voltar ao Uruguai.
Hoje encerro por aqui, agradecendo a quem me lê há mais tempo e também a quem chegou mais recentemente. Gostou do texto? Que tal dizer isso para o (seu) mundo?
Nos vemos em breve, quando o mar estiver mais manso e novas palavras chegarem.


Foi realmente um baita show. E ser apresentada as músicas de Jorge Drexler foi uma das coisas mais legais deste ano!
Perfeito! Não vou nem tentar responder porque palavras não sao o meu forte… só te mando um abraço beeem apertado. ❤️❤️❤️