Sorrir com febre
Uma certa beleza em meio ao caos.
A oncologista veterinária me deu duas opções: um quimioterápico oral e outro por infusão. Eu poderia seguir somente com cuidados paliativos, claro, mas ela tinha que me passar as possibilidades para ganhar um pouco mais de tempo.

Olhei para a Chloé e lembrei da minha tia falando sobre como, quando pequena, eu sorria mesmo quando registrava pavorosas febres de 40 graus. Sendo um cachorro de porte médio sem raça definida, a Chloé não é minha filha biológica, nem sequer somos parentes, mas ela parece ter puxado a mim nesse aspecto.
No início de janeiro, a Chloé passou por uma cirurgia para remoção do baço, o órgão mais inútil de todos os tempos para sempre – em cães e humanos, inclusive. No caso dela, um tumor ameaçava tal órgão de romper, além de provocar uma dor que a deixava ofegante e inapetente – era possível ver os ossos sob a pelagem curta e preta. A esplenectomia garantiria mais qualidade de vida, além de permitir entender melhor o que realmente se passava ali dentro.
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Um mês depois e vendo a cã bem recuperada, a médica explicava o diagnóstico de carcinoma pouco diferenciado, o qual dificulta saber o ponto de origem mas comprova que estamos falando de um câncer em estágio avançado. Por dentro, fígado, rim e outros órgãos da Chloé estão sendo tomados por massas que, em algum momento, comprometerão sua plena funcionalidade. Por fora, ela quer brincar. Ela ainda quer brincar. Com a bola, com o ossinho, com um ou outro cachorro que atravessa o nosso caminho. Ela come com a mesma ferocidade de um filhote. Não entendo como possa estar doente. Honestamente, não sei se quero entender.
A médica tenta me consolar explicando que estamos falando de um cão de porte médio de quase 12 anos. Ela já é uma senhora, me diz.
Como assim? Adotei ela ontem.
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Foi num domingo. Almocei com meus pais sem falar nada sobre os planos de adotar um cachorro. Um beijo, um abraço e um “boa viagem!” depois, eles pegaram a estrada de volta a Bagé enquanto eu e meu irmão fomos à festa junina organizada pela ONG de animais resgatados, aqui em Porto Alegre.
Doze anos depois, me encontro sentada no consultório da oncologista veterinária, vendo a Chloé balançar o rabo, feliz, enquanto ouço que não é possível prever quanto tempo ainda lhe resta. Um ano? Três meses? Ninguém sabe. A médica prefere não arriscar enquanto a Chloé engana a nós duas.
Tento sorrir como se estivesse com 40 graus de febre.
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Minha filha canina está bem. Muito bem, aliás. Não sei de onde vem tanta energia. É verdade que ela dorme bastante, mas acho que isso é fruto da convivência com o Tobias, um vovô canino que só quer saber da sua poltrona e de filmes na Sessão da Tarde. A Chloé engordou e o pelo voltou a ter o brilho de um comercial de xampu. Ela dorme em tão completa paz que fica difícil imaginar que por dentro do seu organismo corre algo maligno.
Minha gordita xuxu, como carinhosamente a chamo, não gosta que eu chore. Fica aflita e começa a cavar buracos imaginários como se quisesse me mostrar a qualquer custo que as lágrimas são perda de tempo. Por que ficar triste se podemos aproveitar o dia passeando no sol?, ela me diria. Contra fatos não há argumentos, eu responderia.
Ela está aqui e está bem, abana o rabo quando eu chego em casa e sobe na minha cama todas as noites. Aceitei que a vida se encarregará de trazer o momento em que serei obrigada a deixá-la ir.
Por dentro, meu coração arde em febre. Por fora — e pela Chloé —, eu sorrio.
Para seguir a semana…
Concluí alguns livros recentemente, mas ainda não os digeri em forma de crônica. Tem novos assinantes chegando na área e, como agradecimento, deixo aqui duas newsletters de que gosto muito, e espero que a leitura seja tão bacana para vocês quanto foi para mim. Obrigada pela companhia, nos vemos em breve!



caramba, teu texto mexeu comigo porque meu pitbull de 11 anos está com um tumor reincidente e me vi na coisa do sorriso em meio à febre 🥹
que a Chloé possa desfrutar desse tempo com disposição para seguir brincando e que você siga sorrindo de volta pra ela 🤎
Oi Luísa, um abraço apertado em você e todas as boas energias possíveis para a Chloé! O tempo que compartilhamos junto a quem amamos é o que temos de mais precioso na vida, e a Chloé certamente é muito sortuda por ter você na vida dela, e vice-versa! 💜